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:: A ilha e seu povo ::

Tabela de Conteúdos

1.1 - A vida dos nativos de Morro de São Paulo
1.2 - A descoberta e os pioneiros
1.3 - As primeiras baladas
1.4 - Os estrangeiros
1.5 - O progresso e suas consequências
1.6 - Os Personagens da Ilha
        1.6.1 - Bada, O xerife do Morro
        1.6.2 - Foom, o vendedor de pastéis que encanta
        1.6.3 - A Educadora

A ilha e o seu povo
Fonte: Pescadores - Arquivo Pessoal Romenil

:: A vida dos nativos de Morro de São Paulo::

No passado os nativos de Morro de São Paulo viviam numa verdadeira comunidade e ganhavam a vida das riquezas naturais do local. Um povo pacato e hospitaleiro que morava numa vila simples e sobrevivia exclusivamente da pesca e das lembranças de um passado glorioso. Passado marcado pelos conflitos dos índios gueréns e pelas ousadas invasões holandesas.

Mas não é esta luta que vamos narrar aqui e sim, a luta da sobrevivência, a garra e perseverança dessa gente que fez Morro de São Paulo crescer e se projetar turísticamente. Morro de São Paulo iniciou sua trajetória rumo ao lugar, que conhecemos hoje movido unicamente pela força de vontade de seu povo. Quando Morro de São Paulo era ainda uma vila, isto por volta da década de 50, a maioria das pessoas que morava na ilha, além da pesca tinham as profissões de pedreiro e carpinteiro. Alguns ainda trabalhavam nas caieiras nas fazendas da Terceira Praia.

Pescadores Arquivo Pessoal Romenil
Fonte: Pescadores - Arquivo Pessoal Romenil

A comunidade se alimentava basicamente do que retirava do mar: peixe, lagosta e polvo. A carne vermelha nestes tempos era considerada um luxo e só estava presente no prato dos nativos uma vez por semana devido as dificuldades em adquirir a mercadoria. O transporte era precário e feito com barco a vela. Alguns contam que o tempo do percurso até Valença, cidade mais próxima, podia chegar até quatro horas de viajem sendo que havia barco somente uma vez por semana. O barco partia de Morro de São Paulo na sexta-feira e retornava no sábado. No final dos anos 70 surgiu o barco a motor.
A partir daí o transporte melhorou e os barcos ofereciam a viagem todos os dias, mas somente num único horário, às 6h30min. As primeiras empresas de barcos convencionais, segundo os nativos, foram a Biônica e a Marbel. Domingos dos Santos Ramos, com 67 anos em 2008, conhecido como Seu Chiquinho relata que nestes tempos seu pai, Domingos Olentino Ramos, comprou um barco, colocou motor na embarcação e quando viajava para Valença comprava mantimentos para os vizinhos.

Seu Chiquinho conta também que a primeira pessoa responsável pelo abastecimento de água para a comunidade foi seu pai e tudo começou nas terras da família, localizadas na Primeira Praia, mais precisamente na Rua da Prainha.

Ele lembra que as terras foram vendidas pelo do ex-prefeito de Valença, Gentil Paraíso. Seu Domingos teve a sorte de ter no local um barranco que pingava água. Isto lhe deu a idéia de fazer uma escada de bambu, um tanque e começou a ter água para as necessidades da casa. Os vizinhos foram pedindo água também e ele foi fornecendo.

Até que um dia colocou uma tubulação até a lagoa, mas o projeto não contava com bomba, a água descia naturalmente por desnível e abastecia a Prainha, na época era esta denominação da Primeira Praia. Seu Domingos levou o trabalho por muitos anos até o dia em que teve que parar devido problemas de sáude. Com a ausência do pai, que acabou falecendo, Seu Chiquinho deu continuidade ao trabalho e ficou sendo o responsável pelo abastecimento de água de parte da comunidade de Morro de São Paulo. Comprou motor, colocou tubulação pelas ruas e abastecia a Vila e a Prainha. O problema segundo ele, era receber o pagamento dos beneficiados com a água. Até algum tempo atrás ainda existiam antigos recibos, ou seja, as dívidas. A iniciativa chegou ao fim com a instalação da Embassa e o sistema de abastecimento de água canalizada.

Nesta época, Seu Chiquinho perdeu o cargo de fornecedor de água da comunidade de Morro de São Paulo, função que desempenhou por 17 anos.

A ilha e o seu povo...

As dificuldades enfrentadas entre as décadas de 50 e 60, fizeram alguns nativos tentarem a vida fora da ilha. O problema em manter uma professora no povoado, levou muitos moradores para o continente em busca de Educação. Como exemplo, citamos Manuel Paulo Santos, com 58 anos em 2008.

Ele conta que as pessoas queriam sair daqui para tentar algo lá fora, como estudar e trabalhar. Alguns acabavam voltando como ele. Dos 16 aos 36 anos de idade, Seu Manuel esteve em Salvador. Ao voltar constituíu família, sua esposa se chama Maria de Lourdes Santana, e abriu sua barraca na Primeira Praia (veja como foi esta trajetória no link Praias. Romenil dos Anjos Luz, com 67 anos em 2008, descendente de uma das mais antigas e tradicionais famílias de Morro de São Paulo também percorreu o mesmo caminho.

Fonte: Pescadores + foto do Frame superior:
arq. pes. Fazenda Caeira

Saiu de Morro de São Paulo aos 20 anos, por volta de 1963 e retornou em 1993. Foi morar no Rio de Janeiro e casou-se. Mas apesar da distância, Romenil sempre manteve laços com sua terra, através da família e dos amigos que aqui ficaram. Veraneava todos os anos em Morro de São Paulo e durante o tempo em que esteve fora, investiu pensando no futuro e na sua aposentadoria. Construiu uma pousada e hoje vive sossegadamente com seu próprio negócio.

Mas se por um lado houve aqueles que como os senhores  Manuel e Romenil, que buscaram novos horizontes, deixando a vida pacata do vilarejo, existiram os que faziam questão de morar no povoado mesmo com todas as dificuldades. O motivo desta escolha, segundo contam muitos destes antigos moradores, se deve a vida que levavam. Vida tranquila, sem incomodações.

A única preocupação era com a busca da alimentação. Época em que para viajar até Salvador em barco a vela o tempo do percurso poderia durar até dois dias, dependendo das condições climáticas. Isto quem nos conta é o senhor Reginaldo Ramos Batista, com 83 anos em 2008. “A viagem era sempre devagar, quando não tinha vento ficávamos parados esperando”, lembra. Seu Reginaldo chegou em Morro de São Paulo no ano de  1945  e diz que na Vila haviam poucas casas e a maior destas era o casarão, que até hoje permanece no mesmo local onde foi erguida (veja sua história no link Monumentos Históricos/Casarão).

Não havia energia elétrica, cuja chegada foi em 1985. A luz que clareava as casas à noite vinha do querosene das lamparinas. Outro invento da modernidade, o telefone, chegou por volta de 1988 e segundo alguns moradores o único telefone existente em toda a ilha, ficava situado na Fonte Grande,  na casa de um senhor chamado Aureliano Lima, o Seu Bonzinho como era conhecido. Seu Bonzinho foi um ilustre morador de Morro de São Paulo e tem inclusive o nome de uma praça em sua homenagem. Nestes tempos devido a existência do telefone, sua casa se transformou num verdadeiro posto telefônico. A primeira telefonista foi Ana Lúcia Melo Damascena. Dona Ana lembra que as filas eram quilométricas, existia somente uma linha telefônica e não havia cabine. “Todo mundo ouvia o que se falava”, saliente. 

Dona Ana relata que sabia sobre a vida da maioria dos moradores, mas sabia guardar os segredos. Também nesta época havia uma única padaria no povoado, a de Seu José, chamado de Zé Preto. Um padeiro engraçado, pois segundo nos contam alguns moradores destes tempos, Seu Zé Preto fazia o pão na hora que lhe dava vontade, não tendo hora marcada.

Fonte: Pescadores - Arquivo Pessoal Romenil

Telefone

Outro fato curioso e que desperta muitas saudades por parte dos antigos moradores de Morro de São Paulo, tinha como palco a Fonte Grande. Pelos meados de 1960, alguns contam que até o final da década de 70, havia o hábito dos moradores tomarem banho a partir das 17 horas na Fonte Grande.

Os habitantes dividiam-se entre os homens e mulheres. “Quase toda população tomava banho ali e durante o dia lavavam roupa”, recorda Elze Moutinho Wense, com 77 anos em 2008. Conhecida como Dona Zezé na comunidade, ela lembra que nestes tempos o ambiente era muito sadio, o povo era muito unido e as pessoas se ajudavam, todos muito envolvidos na religiosidade.

Durante o verão, comunidade e os veranistas participavam ativamente das festas promovidas na ilha. A antiga moradora aponta como sendo a única e principal, a festa em homenagem a Nossa Senhora. da Luz, comemorada anualmente dia 08 de Setembro.

Angelina Machado Pimentel, a Gegé, com 52 anos em 2008, também guarda lembranças destas festas. “Ninguém tinha vaidade. Colocáva-mos um vestidinho novo para a festa e pronto”, salienta.

Fonte: Pescadores - Arquivo Pessoal Romenil

Chiquinho

As crianças corriam soltas, ainda mais do que hoje, pelas ruas de terra e os habitantes dormiam com as portas de suas casas abertas. Apesar de que em Morro de São Paulo não há registros significativos de violência, naquela época era bem mais tranquilo. Valencio Inato Manuel do Nascimento, Seu Dandão, com 85 anos em 2008, recorda estes áureos tempos. Segundo ele, se alguém estivesse na rua á noite, chovesse e esta pessoa desejasse tirar a roupa molhada, poderia se despir tranquilamente, pois não correria o risco de alguém registrar este atrevimento. Seu Dandão trabalhou muito tempo como vigilante do Farol, mais de 20 anos, segundo ele. Era ele quem ligava, desligava e tomava conta do Farol. Casado e com seis filhos, ele hoje mora com sua esposa, Isaura Batista da Conceição, com 83 anos em 2008, na Mangaba e a idade avançada e a saúde um pouco debilitada já não permitem que eles transitem pelas ruas. Passam a maior parte dos dias em casa.

Fotos Antigas
Fonte: Segunda- Arq. Pes. Leila Chaves Barcelos | Foto Geral Morro arquivo pessoal Romenil | Praça Aureliano Lima dec. 80 - Arq. Pes. Leila Chaves Costa

Tópicos relacionados: A memória viva de Morro

:: A descoberta e os pioneiros ::

O ambiente sossegado encontrado no antigo vilarejo de pescadores foi aos poucos se modificando e as dificuldades dos nativos desaparecendo pela entrada de capital e aparecimento de novas frentes de trabalho. Este quadro começou a despontar quando surgiram os primeiros veranistas. Como já narramos no link A História de Morro de São Paulo / O surgimento do Turismo, estas pessoas hoje chamadas de turistas, eram originárias de cidades próximas à ilha e veraneavam em Morro de São Paulo, ficando no lugar até três meses durante o verão. A chegada e a permanência destes veranistas mudaram os hábitos dos nativos e fizeram com que estes criassem alternativas de sobrevivência além da pesca e das profissões na área de construção. Os moradores de Morro de São Paulo passaram a oferecer suas próprias casas e em alguns casos a falta de acomodações fez com que até as redes servissem para os turistas pernoitarem.

Os nativos dormiam nas varandas e nas cozinhas para poder alugar os quartos da casa e assim ganhar um dinheiro. Houve também casos de veranistas que se instalaram em Morro de São Paulo, construíndo suas próprias casas de férias. Para reforçar esta demanda, surgiram na década de 70 os hippies, que eram pessoas de hábitos simples e de costumes desgregrados, que viviam em grupos e normalmente acampavam nas praias. Nesta época, segundo contam alguns moradores, surgiram às primeiras iniciativas para atender as pessoas que visitavam a ilha. Os nativos adaptaram-se às mudanças e criaram seus próprios negócios.

Veranistas
Fonte: Veranistas- Arq. Pes. Juliana Goés
Veranistas
Fonte: Veranistas- Arq. Pes. Juliana Goés

Dona Romilze Teófila Batista, com 73 anos em 2008, mora há 54 em Morro de São Paulo e foi, segundo contam os antigos habitantes, a primeira pessoa a abrir um restaurante no povoado. Chamado de “Restaurante Gaúcho” e localizado na parte central, na Vila, era o único restaurante em Morro de São Paulo no ano de 1982. Nesta época, Dona Romilze fez uma parceria com algumas amigas da cidade de Valença, que traziam turistas para almoçar em seu restaurante. Ela conta que junto com o marido, Reginaldo Ramos Batista, com 83 anos em 2008, pescava e vendia os peixes na cidade de Valença ou até mesmo no Mercado Modelo, em Salvador. O dinheiro da venda era usado para comprar ítens e investir no restaurante e na casa.

No restaurante havia duas mesas de sinuca e uma geladeira movida a gás. Com o tempo e a melhora nas finanças, montou um mercadinho junto ao restaurante, segundo ela, também foi o primeiro mercado de Morro de São Paulo. Romilze mantém viva na memória, as recordações destes tempos em que alguns nativos se concentravam ao redor das mesas de sinuca e provavam as “pingas”. Tempos de luta para a sobrevivência do dia-a-dia que deixaram, além das marcas nos rostos, momentos inesquecíveis. “Quando eu vendia peixe no Mercado Modelo de Salvador fui entrevistada por uma revista nacional (Veja). Não tenho mais esta revista”, lamenta Dona Romilze.

Mas não precisa, Dona Romilze. Vemos nos seu rosto as marcas de um passado batalhador. “Minha vida foi dura”, ressalta. Tudo o que tem e conquistou até hoje é fruto de seu trabalho e tantos anos de perseverança lhe deram uma vida mais confortável. Hoje ela e o marido vivem da renda de duas pousadas e alugam quartos para moradores. Apesar da tranquilidade financeira, Seu Reginaldo até o ano de 2008 cortava e carregava lenha. É o hábito do trabalho, uma característica marcante e predominante do povo de Morro de São Paulo.

Outro exemplo da batalha pela sobrevivência, vem na área da gastronomia e também despontou neste período. Hoje é um dos mais conhecidos e frequentados restaurantes da ilha, o Restaurante da Tia Dadai.

Maria Madalena Santos Costa, com 61 anos em 2008, a Dadai como é conhecida em Morro de São Paulo, foi também uma das primeiras moradoras em fazer da comida baiana o seu ganha pão. Depois que fechou a barraca na Primeira Praia, que pertencia á sua mãe, Dona Mariinha, foi aos poucos abrindo o restaurante. Primeiro construiu a casa para morar, depois foi servindo café da manhã para turistas.

Dadai lembra exatamente a data que foi aberto o restaurante: dia 10 de julho de 1993. A partir deste dia foram surgindo os primeiros fregueses vindos da capital e cidades vizinhas, que foram provando os quitudes de Tia Dadai e assim tornaram o restaurante conhecido. Entre os clientes estavam jornalistas de Salvador que divulgaram o restaurante pela capital baiana.

O Tia Dadai teve até a visita de clientes ilustres como o apresentador Jô Soares, que em uma matéria ao Jornal A Tarde, comenta sua visita ao estabelecimento e elogia o tempero desta baiana de Morro de São Paulo.

A matéria foi guardada e está na parede, onde é exibida com orgulho pelo atual proprietário, Ivan Pereira Riberio, que arrenda o restaurante desde 2004. Apesar de não ser mais proprietária, Dadai, pesca diariamente e faz todo o trabalho de casa. Tem somente uma queixa: a saúde que está começando a incomodá-la.

Fonte: Materia tia dadai arq. pes. Rest. Tia Dadai

Veranistas

As primeiras pousadas surgiram na década de 80 e conforme alguns antigos moradores a primeira pessoa foi uma paraíbana chamada Gracinha, proprietária da pousada “Sil do Mar”, localizada no caminho do Farol. Outra pioneira neste setor foi Angelina Machado Pimentel, a Gegé que abriu sua pousada em 1986.

Nativa de Cairu, Gegé veio aos 21 anos de idade morar em Morro de São Paulo. Como não se adaptava a vida sossegada, sem novidades, segundo ela mesma conta, seu sogro o “Seu Bonzinho” (Aureliano Lima) fazia e comprava tudo para tentá-la manter na ilha. “Eu fui a primeira pessoa a ter uma geladeira movida a gás, uma televisão também movida a bateria”, conta orgulhosa.

Fonte:
Veranistas
Arq. Pes. Juliana Goés
Morro na dec. 80 - Arq. Pes. Leila Chaves Costa

Com o passar do tempo, Gegé comprou um terreno na Fonte Grande e começou a construir sua casa e a pousada. Ela mesma carregava tijolos e brita com a ajuda dos burricos. Preparava o cimento, enquanto o marido levantava as paredes. A denominação pousada era desconhecida por Gegé. Para ela, o empreendimento significava apenas uma maneira de ganhar um dinheiro para sobreviver.

Os primeiros turistas que se hospedaram, uma equipe de médicos, até hoje são seus amigos e ainda frequentam a pousada. Aos poucos foi construindo, se separou, mas ficou com uma parte da casa e até hoje vive no local. Ampliou e transformou numa verdadeira pousada e hoje conhece muito bem o significado da palavra.

:: As primeiras baladas ::

As primeiras Baladas

Morro de São Paulo mantém desde o início do seu despertar turístico, a fama de lugar agitado e point dos descolados. As festas mais badaladas da ilha se concentravam até alguns anos atrás, na Segunda Praia (leia o link Praias / História da Segunda Praia) e alguns dos responsáveis por esta trajetória de festas, vivem até hoje em Morro de São Paulo. Alguns ainda levam a vida promovendo eventos, já outros se dedicam a projetos diferentes.

O baiano Jorge Gramacho é um destes incentivadores culturais responsáveis pelo surgimento e início das festas em Morro de São Paulo que marcou uma época na história da ilha. Natural de Salvador, Gramacho veio conhecer Morro no ano de 1987.

Antes disso, tinha uma vida urbana, convivendo com trânsito e poluição. Nunca imaginava que viver dentro de um lugar como Morro de São Paulo fazia diferença e faz até hoje, segundo ele nos conta. 

Teatro do Morro

Ibiza, na Segunda Praia
Na época em que chegou na Segunda Praia haviam duas barracas localizadas no início e no final da praia. No centro da praia ficava existia um ponto, que hoje é de sua propriedade.

Na ocasião, o ponto estava arrendado por uma amiga e conhecendo o local, Gramacho lembra que ficou deslumbrado.

Fez uma proposta e alugou a barraca. Manteve o mesmo nome, “Oxum”. Após algum tempo, com a melhoria dos negócios e juntamente com sua ex-mulher, comprou o ponto e o transformou numa área de lazer com rede de vôlei e tabuleiros de jogos.

Tudo voltado para o entretenimento do turista, segundo relata. Havia ainda, mesa de sinuca e como na época a energia elétrica ainda não existia em Morro de São Paulo, colocou uma bateria de caminhão para reprodução de som e animação dos visitantes. A maioria dos turistas era estrangeira, com destaque para os argentinos.
Entre os brasileiros estavam os paulistas e os mineiros. Gramacho diz que muitas destas pessoas apenas visitaram o lugar, outros se fixaram e tiveram ainda aqueles que “desarrumaram suas vidas, pois o paraíso, às vezes, pode desequilibrar as pessoas que não estão preparadas para tanta liberdade”, enfatiza Gramacho.  


Nestes tempos a barraca vendia uma média de 150 dúzias de lambretas por semana junto com outras icuárias da região como carangueijos e diversas espécies de peixes. Com o passar do tempo, Gramacho sentiu a necessidade de fazer alguma coisa para aumentar o movimento durante a noite e atender as pessoas que gostavam da vida noturna.

Empolgado com a idéia de transformar sua barraca no novo point noturno da ilha, ele trouxe de Salvador uma aparelhagem e começou a fazer festas com som mecânico. No começo agradava não só os turistas, mas principalmente os moradores, que eram carentes de opções deste tipo.

Colocou uma cerca para delimitar a área e foi a primeira casa a promover festas na beira da praia à noite. Durante quatro anos conseguiu manter sua iniciativa, mas depois foram surgindo as outras barracas e consequentemente as concorrências.

Surgiram as caipifrutas e as festas na Oxum aconteceram até 1991, quando apareceram outras casas e devido a competição sonora ele resolveu fechar as portas. Na época em que sua barraca funcionava durante o dia, Gramacho lembra que existia uma casa, situada na entrada da ilha, que também promovia festas.

Decada Dos 80, Segunda Praia

Todos os baladeiros da ilha frequentavam o local. Isto por volta de 1987 e 1988. No final das festas, as pessoas não tinham onde fazer um lanche, pois não funcionava nada na Vila durante a madrugada. Neste período, então, Gramacho teve a idéia de abrir uma lanchonete com o nome de “Q. Beco”, na rua Caminho da Praia, na Vila, parte central de Morro. A lanchonete funcionava da meia-noite às 4 horas da manhã e devido o barulho que os clientes faziam ao chegar das festas, permaneceu aberta apenas seis meses. De lá para cá Morro de São Paulo tomou outros rumos e sua barraca virou pousada.

Surgiram as festas promovidas por Luciano do Caitá, na Segunda Praia, onde hoje funciona a galeria do Funny. Conforme Gramacho eram festas mais voltadas para os turistas, mais comerciais. Surgiu a Ponta da Ilha; um bar chamado “Iemanjá”, que anos mais tarde foi arrendado e mudou o nome para “Ibiza”. Mais tarde este mesmo bar, se transformou numa das opções de festas mais badaladas e descoladas da Segunda Praia, o conhecido “87 Music Bar”, que atualmente está fechado.

:: Os estrangeiros ::

A história da Ilha de Tinharé também está associada desde sua colonização à interferência e influência dos estrangeiros.

Desde os primeiros tempos, Morro de São Paulo recebe pessoas de fora, pertencentes a outros países e outras nacionalidades que elegeram esta ilha como residência.

São dezenas de estrangeiros que atraídos pelas belezas naturais, aqui aportaram em busca de oportunidade, liberdade ou apenas tranqüilidade.

estrangeiros

Alguns não resistiram aos encantos de Morro de São Paulo e trocaram a sofisticação das cidades grandes pela simplicidade da ilha. Muitos se deixaram levar por este clima para sempre e resolveram morar. Achamos que é fundamental registrar alguma destas histórias, destes estrangeiros que ajudaram a construir o progresso desta ilha.

Os estrangeiros também vinham atrás de uma vida melhor e a primeira vista Morro de São Paulo era um lugar perfeito para atingirem seus objetivos. As mãos destes forasteiros, assim chamados antigamente pelos nativos, ajudaram a impulsionar a nova fase do turismo em Morro de São Paulo. Eles traziam novas idéias de organização de trabalho que se difundiam na Europa e nos outros continentes e incorporaram estes hábitos na população, mudando a cara do povoado.

Poderíamos citar muitos exemplos destes estrangeiros, são muitas as histórias de sucesso e permanência na ilha, mas contaremos a trajetória de apenas um que servirá como exemplo de que estas pessoas, pelo menos grande parte delas, não deseja apenas usufruir do lugar mas também almeja melhorar o espaço e tem a preocupação de cuidar do ambiente onde vive. A história de Horst Drechsler, de nacionalidade alemã, que vive em Morro de São Paulo desde 1982.
Horst

Horst nos conta que estava viajando pelo mundo e resolveu aportar em Morro de São Paulo, onde na época estava um amigo de sua mesma pátria. Veio para conhecer e ajudar o amigo a construir e acabou ficando por seis meses. O amor por Morro de São Paulo nasceu, conforme ele diz, pela multiplicidade cultural. “A mistura que existe faz com que não nos sintamos diferentes das pessoas que vivem aqui”, define. Claro, que a natureza que encontrou na ilha é o outro motivo.

Após este período, retornou para seu país, a Alemanha, trabalhou, visando juntar dinheiro para retornar a Morro de São Paulo. Horst fez o que a maioria dos estrangeiros fazia: retornava aos seus países e juntando uma quantia voltavam ao Brasil para investir. Conforme Horst, nesta época em Morro de São Paulo a única forma de renda era a pesca. E a pesca não estava entre suas habilidades.

Voltando da Alemanha, onde trabalhou durante três meses, ele permaneceu o restante do ano em Morro de São Paulo e assim foi levando sua vida até que se estabeleceu definitamente na ilha em 1986. Primeiro alugou uma casa, a antiga residência de Manuel Elisbão, localizada na parte central na Vila e atual área onde hoje funciona sua pousada.

Em 1988 comprou a casa e a partir daí começou a ampliá-la e dar formato a pousada. Ele também marcou presença na história de Morro de São Paulo, como um dos pioneiros neste setor. Lembra que qualquer investimento neste período era lucro certo. Prova disso, é que quase todo o dinheiro investido foi praticamente recuperado no primeiro ano de existência da pousada Natureza.

Hoje em dia, Horst possui uma bela e organizada pousada e ainda tem tempo para curtir um de seus hobbies preferidos: velejar. Ele é o dono de um Clube de Velas, que fica na Praia da Gamboa. (confira no link Como Chegar com sua própria embarcação a Morro de São Paulo.

Empresário consciente, Horst sabe que parte do sucesso que teve em seus empreendimentos juntamente com o progresso que invadiu Morro de São Paulo nas últimas décadas, trouxe consequencias graves para o meio ambiente da região. “Eu não desejava que o progresso chegasse tão rapidamente, pois sei das consequencias disso”, diz. Como não há como frear o desenvolvimento procurou preservar, porém, poucas pessoas lutavam e lutam por este ideal na ilha.

Para Horst, este é o único ponto negativo. Ver o que acontece, saber como vai acabar e não poder evitar. Mas podemos e devemos mudar esta história. Veja como o povo de Morro de São Paulo está agindo perante as mudanças impostas pelo progresso e o que ainda é possível fazer para mudar alguns hábitos e preservar o meio ambiente da ilha.

:: O progresso e suas consequências ::

A vida prossegue em Morro de São Paulo como tem sido nas últimas décadas deste século. A população residente na ilha cresceu grande parte deste crescimento se deve pelo aumento de pessoas que fixaram moradia no local. O número de turistas que visitaram a ilha a tornou conhecida mundialmente e a cada ano Morro de São Paulo recebe uma nova leva de transformações e após estes quatro séculos que se passaram, Morro de São Paulo recebe diariamente as invasões de turistas. Vários outros pontos turísticos do Brasil, como exemplo outra praia baiana, Porto Seguro, também passou por este mesmo processo. Primeiro vem a descoberta, depois a invasão e infelizmente a descaracterização do lugar. O deslumbramento com a nova atividade, o turismo, rende lucro fácil. Para quem estava costumado a ganhar dinheiro somente da pesca, as novas frentes de trabalho tornaram-se excelentes oportunidades de chances de enriquecimento. O progresso veio através da nova iluminação, da construção de pistas de pouso de aviões e da construção de dezenas de pousadas. Estes investimentos não modificaram o cenário natural da ilha, mas paisagens vão aos poucos sendo mudadas e o meio ambiente, sofrendo com estas alterações.

Referimo-nos aqui, não somente as mudanças da natureza, mas também as modificações pelas quais passaram os nativos deste lugar, que tiveram suas vidas invadidas e as viram misturar-se a outras culturas e costumes. Muitos relatos de nativos antigos apontam para a chegada do progresso como tendo dois lados: um positivo caracterizado pelo surgimento do turismo com o aparecimento das pousadas que foram se multiplicando e gerando emprego para muita gente e outro negativo, com a descaracterização da cultura local. Morro de São Paulo sempre foi um povoado sofrido do ponto de vista econômico até que o fluxo de turistas atingiu o espaço. As pessoas sempre sobreviveram em função de um extrativismo animal, da pesca. É um apostar na natureza. No final da década de 70, o nativo começa a sentir o sabor de uma perspectiva totalmente consciente do futuro. Sobretudo quando começa a enxergar outras moedas estrangeiras como o dólar e o euro. Vários estrangeiros apostaram no lugar, porém, a maioria destas apostas foi superficial, do ponto de vista do desenvolvimento local.

O progresso

A Segunda praia hoje...

Na opinião do professor e historiador, pertencente a uma tradicional família de Morro de São Paulo, Augusto César M. Moutinho, os estrangeiros chegavam, trabalhavam durante o verão, capitalizavam seus negócios e no inverno retornavam para suas terras a fim de curtirem o verão europeu. O retorno era pequeno. Associando isto, a uma ausência total de uma política pública relacionada ao desenvolvimento do espaço e a melhoria da infra-estrutura, muito comum em algumas gestões passadas, temos um ambiente caótico. Morro de São Paulo começa a expandir primeiro horizontalmente, depois verticalmente. “A minha geração subia até o Farol e contemplava a Segunda Praia, que no verão era um mar de barracas coloridas. Automaticamente isto foi convertido numa grande invasão, não das barracas, mas de pessoas que buscaram constituir negócios”, lembra Moutinho. “Aquilo que a gente viveu há 20 anos tem infelizmente um sabor de saudade”, conclui. A Segunda Praia perdeu sua constituição física. A ilha da Saudade não é mais uma ilha. Grande parte das construções em Morro de São Paulo foi feita desordenadamente.

De acordo com os nativos, não houve uma disciplina na ocupação das áreas e o rápido crescimento turístico afetou parte dos recursos naturais da ilha. A lagoa e a fonte existente na Biquinha, são exemplos deste descaso com a natureza. Conforme os relatos da senhora Maria do Carmo Lopes Conceição, nativa já falecida, a lagoa hoje não chega nem perto do que já foi. “Antigamente havia um casal de patos que quando enxergavam as pessoas, entravam na água e de lá não saíam”, lembra. Hoje o que vimos é um cenário bem diferente. Desaparecida há muitos anos, a lagoa representa apenas uma pequena porção de água, pois o local foi quase que soterrado e a água não é tão limpa. Na Biquinha havia um bebedouro natural onde os nativos consumiam a água, inclusive, José Oliveira Santana, nativo, com 52 anos em 2008, recorda que existia uma bica d’água de onde os nativos usufruiam tranquilamente da água jorrada. Ele não lembra o ano, em que foi feito um mutirão entre os moradores para restaurar o bebedouro natural. Com a construção das pousadas o bebedouro acabou. “A água era cristalina, pura”, ressalta.

O historiador acredita que no curso de 20 anos a ilha sofreu alterações significativas e tristes. Esta contestação, segundo Moutinho, se dá pela perda de alguns elementos culturais que faziam parte da comunidade. Os espaços foram sofrendo alterações muito bruscas, por exemplo, toda a comunidade convergia sua fé para a Igreja Nossa Senhora da Luz.

As manifestações culturais aconteciam no largo em que a igreja se localiza e este foi sendo subtraído por conta da especulação imobiliária, por conta da invasão das pousadas. “Chegou num determinado ponto que aquele espaço que era considerado sagrado para o povo, não faz mais sentido”, explica o professor.

Ponte do Morro e Receptivo do Morro

As festas populares que ainda acontecem como o Cortejo de São Benedito, agora são realizadas de maneira descolada da realidade do povo. A comunidade sobrevivia quase que em função de um patamar máximo de solidariedade. Hoje não se vê mais este patamar. Os moradores não têm mais tempo de se relacionarem com o coletivo, estão ocupados trabalhando. “As teias de solidariedade se dissolveram até dentro da família e a gente enxerga isto com extremo saudossimo e com tristeza também”, enfatiza. Segundo o historiador, talvez o único elemento que fará com que Morro de São Paulo seja cataptado como um consenso de desenvolvimento sustentável correto, bom para todos, seja este vínculo que o sujeito estabelece com o lugar.

Morro de São Paulo é um lugar cosmopolita agrega várias identidades e valores. Só que estes valores são passageiros, pois as pessoas vêm e vão. E esta ausência de identidade, esta vontade de transformar o local, faltou ao nativo. “É a capacidade que a pessoa tem de morar ali, produzir algo consistente. Produzir uma cultura interessada numa coletividade”, conclui.
Gamboa e Lagoa...hoje

E não é preciso ser um estudioso no assunto para enxergar claramente estas características apontadas pelo historiador. Os próprios nativos acham que Morro de São Paulo perdeu muito de sua cultura local com a chegada e proliferação de outros costumes. Dona Zezé, Elze Moutinho Wense, nativa com 77 anos em 2008, atribui a chegada dos hippies à grande parte destas mudanças. “Eles trouxeram costumes diferentes, os estrangeiros foram conhecendo o Morro e muitos se radicaram aqui e nossa cultura foi sendo abafada”, salienta. A troca dos nomes originais das praias, os preparativos dos festejos populares como o de São João, também é citado como recordações de um passado distante e que deixou muita saudades.

Morro de São Paulo perdeu parte de sua beleza natural, devido o crescimento desenfreado do turismo. O turismo trouxe o progresso, mas também algumas derrotas. Mas apesar destas perdas ainda existe uma imensa e bela natureza em nossa ilha, que atrai turistas de todos os cantos do mundo. O que dizemos acima deve servir de alerta e reflexão para a própria comunidade, que deve se policiar e preservar. Para os nossos governantes que devem adotar medidas para cuidar de Morro de São Paulo.

É uma luta de todos, onde a vitória só será alcançada se houver união. Morro de São Paulo é um dos poucos lugares no mundo onde existe uma reserva humana, onde as pessoas interagem 24 horas. Integram-se e tanto faz se são de Norte ou Sul de qualquer lugar do mundo. Para Jorge Gramacho, antigo morador, há uma necessidade de preservar a identidade e isto deve servir de reflexão. Morro de São Paulo não deve ser visto como um lugar só para ganhar dinheiro, mas também para se investir socialmente. “É preciso que se more e goste de Morro. Vamos aproveitar a natureza que está nos dando este cenário, o que falta é respeitá-la de uma forma mais condizente e decente”, declara Gramacho.
E como muito bem diz a ex-diretora cultural e moradora, Lena Wagner há desencontros, mas as pessoas ainda se preocupam com isto e a preservação dos recursos naturais, não deve ser vista como modismo ou como chavão, mas sim como verdadeira, com sentimento, alma e coração. “Assim teremos dignidade para recebermos nossos visitantes e o Morro sempre dará uma resposta, pois ele é o portal da alegria e o farol da esperança”, define Lena. Precisamos dizer mais alguma coisa com esta definição?

:: Os Personagens da Ilha ::

Morro de São Paulo, além das belezas naturais, possui outro tesouro: sua gente. O povoado de Morro de São Paulo abriga personagens e figuras especiais, que retratam histórias marcantes e de coragem. Cada personagem deste enredo apresenta uma vida diferente, mas todos protagonizam fatos que merecem serem contados. Trajetórias de lutas e desafios. Que instigam nossa imaginação e nos levam a viajar através de suas narrativas. Destacamos algumas destas histórias para que você as conheça e se encante com estes depoimentos, que também fazem parte deste paraíso chamado Morro de São Paulo e cujas existências fazem toda a diferença na história principal da ilha.

Pessoas e Personagens

:: O xerife do Morro ::

Bada

Não tem alguém em Morro de São Paulo, entre nativos e moradores, que já não tenha ouvido falar de Bada. Uma pessoa carismática e respeitada que é “filho desta terra”, como ele mesmo diz. O povo o chama e o solicita frente a qualquer problema. Qualquer coisa que acontece na comunidade as pessoas reclamam diretamente com ele. O motivo desta popularidade não vem de agora.

Osvaldo Vasco dos Santos, seu verdadeiro nome, com 56 anos em 2008, já foi intitulado “delegado” de Morro de Pão Paulo. Isto há 10 anos atrás, na época em que a delegacia contava apenas com uma sede simples e os policias ficavam num posto localizado do distrito da Gamboa.

Com o apoio da comunidade, Bada abordava as pessoas e quando percebia que o indivíduo não era de “boa conduta”, o expulsava da ilha.  “O xerife do Morro”, assim era conhecido entre os habitantes de Morro de São Paulo e região. E é destes tempos que Bada nos narra um episódio que retrata muito bem sua força perante o povo. O caso de um nativo chamado Pastel. Dois assaltantes esconderam-se em sua casa, na Segunda Praia e acabaram o ferindo com uma faca. Pastel faleceu e este fato causou revolta na comunidade de Morro de São Paulo.

Bada junto com outros nativos saíram à procura dos criminosos na Mangaba, onde estavam escondidos. Munido com uma escolpeta e um revólver, capturou um dos assaltantes, mas o outro fugiu. Quando Bada trouxe de volta o ladrão, próximo a Padaria de Seu Bonzinho na Fonte Grande, o povo gritava e ovacionava por ter capturado o assaltante. Esta história foi há 15 anos atrás, mas até hoje ele recorda com orgulho e lembra das palavras ditas pela comunidade: “Esse é o homem”. Bada entregou o indíviduo aos policias da Gamboa, que foi levado para a delegacia.

A personalidade forte vem da infância. As dificuldades vividas o deixaram calejado e o fizeram enxergar o mundo desde cedo com muita responsabilidade. Bada perdeu o pai com 12 anos e teve que sustentar os 11 irmãos. Depois que casou, com Dona Celeste, passou a viver da pesca, única forma de subsistência em Morro de São Paulo na época, até adquirir seu primeiro barco. Aos poucos Bada foi trocando de embarcações até que conquistou um barco com capacidade para 70 pasageiros e fazia o percurso Morro/ Salvador/Morro. Ficou por muito tempo com este barco até que resolveu vendê-lo e comprar outras lanchas menores para os filhos que hoje trabalham com passeios e fretamentos. Mas bem antes de ser um dos marinheiros da ilha, Bada marcou sua história em Morro de São Paulo também sendo proprietário de um dos restaurantes mais conhecidos durante o final da década de 90. O Restaurante “Vereda Tropical”, fechado há 15 anos que ainda está na memória de muitos moradores que foram seus clientes. Bada ficava na cozinha com a esposa e os próprios clientes se serviam. Atualmente o ex-xerife cultiva outra grande paixão: a politica. Ele foi vereador entre 2000 e 2004 pelo Partido da Frente Liberal (PFL) e nas eleições de 2008 foi candidato novamente ao cargo, pelo Partido Comunista do Brasil (PcdoB).

:: O vendedor de pastéis que encanta ::

Foom

Assim como Bada é lembrado pela maioria da população como pessoa influente, há outro personagem nesta ilha que apesar de não ser nativo, tornou-se uma unanimidade quando se fala em alegria. Roberto Silvio Maron, com 52 anos em 2008, o popular Foom, é consagrado pela sua alegria e simpatia entre comunidade e turistas em Morro de São Paulo. Muitos turistas que passarm pela ilha levaram um pouco das histórias contadas por Foom e as trasmitiram para outras pessoas. Foom vende pasteís todas as noites num carrinho que fica na Praça Aureliano Lima, na Vila, parte central de Morro. E é neste ponto que ele arma seu cenário para o espetáculo de diversão que encanta e diverte os turistas. Embalado pelo seu violão e com a companhia de outras pessoas que tocam percussão, visitantes e moradores cantam por horas. Aliás, a Vila sem a barraca do Foom não é a mesma. Mas para chegar até aqui, para conquistar esta simpatia e admiração, este argentino passou por muitas coisas e tudo deve início em 1986, quando veio pela primeira vez a Morro de São Paulo. Foom morava em Arembepe, na Bahia, numa comunidade hippie onde conheceu um dinamarquês que lhe falou sobre Morro de São Paulo. A paisagem descrita pelo amigo despertou o interesse em conhecer o lugar. Passaram-se três anos e em 1986 ele veio conhecer a ilha, exatamente no dia 08 de dezembro, feriado baiano de Nossa. Senhora da Conceição. Ele lembra perfeitamente da viajem de ônibus com parada na cidade de Valença. Nestes tempos a rodoviária ainda era um pequeno terminal, localizado perto do cais. Recorda também, que era uma verdadeira aventura, pois chegaram de madrugada e embarcaram no barco que partiu às 4 horas da manhã, chegando em Morro de São Paulo às 7 horas.

Quando desembarcu em Morro de São Paulo, junto com sua esposa Graciela Isabel Rodriguez e os três filhos, todos pequenos, Foom não acreditou no que estava vendo. “A cor da água era transparente e parecia que estávamos chegando dentro de um aquário”, relata. Ele se deslumbrou com o que viu e sentiu. “Parecia um cartão postal, ouvia-se o silêncio do lugar”. Foi então que decidiu: é aqui que vou ficar.

O começo não foi fácil, mas ele encontrou em Morro de São Paulo uma coisa que procurava desde que saiu de seu país, a Argentina, o calor humano. A receptividade dos nativos foi muito boa e para comprovar isto, Foom conta que um morador lhe emprestou uma casa, que ficava situada na Fonte Grande para ele morar. Foi a primeira demonstração de apoio, respeito e sentimento por parte da comunidade. Devido a falta de estrutura da ilha em relação a educação, eles decidiram voltar a Salvador para que as crianças pudessem estudar.

Ficaram por três anos e quando soube que Morro de São Paulo já estava com mais infra-estrutura, regressou em 1993 e foi aí que iniciou a atividade de vendedor de pastéis. Segundo Foom, ele foi o primeiro vendedor ambulante de alimentação da ilha. No começo vendia os pastéis acompanhados com café para as pessoas que embarcavam nos barcos com destino à Valença. Ficava sentado em frente à Igreja Nossa Senhora da Luz  à partir das 5h30 esperando os clientes. Foi assim que surgiu o “pastel do Foom” que anos mais tarde teve seu ponto fixo, no mesmo local que permanece até hoje.

Foom no Teatro

Nesta época ele vendia também pastel na beira da praia, caminhando da Primeira até a Quarta Praia. Assim trabalhou até o Natal de 2007, mantendo a partir desta data apenas o ponto fixo. Há 15 anos ele vende pastel e também cativa os turistas, que se divertem com o som e a batucada. Já chegou a vender 300 pastéis numa mesma noite e o segredo, além da simpatia, está na forma do preparo. É tudo feito artesanalmente, Foom prepara a massa e Graciela faz os recheios. Ele recorda que a idéia de tornar o local mais agradável e atrair os fregueses surgiu quando ele convidou Joe, um nativo que vende caipifruta junto ao carro do pastel, a fazer um som e assim surgiu a famosa batucada do Foom. Aliás, a música sempre foi uma paixão deste argentino que tem uma banda chamada “Banda Morro de São Paulo”, atualmente desativada. Além do agito que faz junto ao ponto do pastel na vila, ele também toca uma vez por semana, toda quarta-feira, no Teatro do Morro.  Hoje, Foom se mantém com o ponto da vila e seu próximo objetivo é comprar um barquinho para pescar. Um projeto simples, que segundo ele, já conquistou muito e sente-se grado com a comunidade de Morro de São Paulo pela acolhida e respeito que teve durante todos estes anos.

:: A Educadora ::

Dona Zezé

Se pedirmos para algum morador de Morro de São Paulo definir em poucas palavras Dona Zezé ou professora Zezé, como também a chamam com certeza as palavras usadas seriam “uma grande incentivadora” ou ainda “uma excelente educadora”. A senhora Elze Moutinho Wense, com 77 anos em 2008, nativa, se faz presente na história deste lugar por sua perseverança e coragem em acreditar e apostar na educação.

A vida desta batalhadora, que sempre defendeu o ensino como principal agente de transformação do ser humano, foi semelhante à vida dos demais nativos de Morro de São Paulo.

Movida a muito trabalho para sobreviver e enfrentar as adversidades do lugar. Mas vemos claramente uma diferença em sua trajetória: sua preocupação com um futuro mais justo e humano. E este futuro, de acordo com suas palavras, “é feito a partir da formação do ser humano”.

O interesse pela educação está no sangue e vem das gerações passadas. Sua avó, que se chamava Aquilina Maria, foi a primeira professora primária de Morro de São Paulo e sua mãe, uma antiga professora que atuou voluntariamente por 22 anos na Escola Nossa Senhora da Luz.

Segundo nos conta Dona Zezé, nesta época não havia professoras na ilha e sua mãe, Áurea Moutinho, alfabetizava as crianças. Este gesto rendeu uma justa homenagam e em 2002 seu nome foi dado a Escola Municipal Áurea Moutinho, localizada no caminho do Zimbo.

Na época em que viveu em Valença, onde residiu com o marido quando este ficou doente, professora Zezé ficou afastada das salas de aula. Depois que ficou viúva, ela retornou aos estudos, se formou em Magistério e trabalhou com música, praticando canto.

A professora não parou por aí. Especializou-se, cursando Teologia em Ilhéus e prestou concurso para o Estado e até hoje está nesta área. Desde que assumiu seu posto como diretora da Escola Municipal Áurea Moutinho, ela cativa a todos não só pela simplicidade, mas também pela dedicação com os alunos. Esta professora, de voz suave e aspecto físico e frágil ganhou lugar cativo na classe da educação de Morro de São Paulo e nas horas em que está fora da escola, ainda encontra tempo para desempenhar outra paixão: cuidar da igreja.

Junto com Frei Elias Feitosa, responsável pela Paróquia, realizou parte da restauração da Igreja Nossa Senhora da Luz. Desde 2004 eles estão envolvidos neste projeto e fazem da maneira que podem, pois não tem apoio do poder público, apenas da comunidade.

Dona Zezé foi a grande responsável por parte do trabalho realizado até hoje, pois foi com suas economias pessoais que foram feitas a maioria das obras de restauração do templo. (conheça mais sobre esta história no link História/ Monumentos Históricos / Igreja N. S. da Luz).

Devido sua fé, dedicação e absoluta força de vontade é que Dona Zezé é uma das personagens, que fazem parte da história de Morro de São Paulo.

Dona Zezé

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Última atualização: 09 | 03 | 2009
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